Microbiota e depressão: como a saúde intestinal afeta seu humor
Estudos vêm demonstrando a relação complexa entre a microbiota e depressão, reforçando a importância de cuidar tanto da saúde emocional quanto da saúde intestinal. Isso porque, assim como o cérebro influencia o funcionamento do intestino, o intestino também exerce impacto direto sobre o cérebro. Fascinante, não é? Essa via de comunicação entre os dois é conhecida como eixo intestino-cérebro. Quer entender melhor como isso funciona? Continue a leitura!
Qual a relação entre microbiota e depressão?
A relação entre intestino e cérebro é complexa e uma descoberta relativamente recente - cuja ciência ainda vem explorando. Fato é, essa comunicação existe e é muito mais intensa do que se imaginava - ela acontece via nervos (como o nervo vago), hormônios, neurotransmissores, informações de nutrientes, estiramento gastrointestinal, moléculas do sistema imune e outros.
Essa troca de informações é chamada de eixo intestino-cérebro e a microbiota intestinal tem uma participação fundamental nessa relação. O termo “microbiota” se refere ao conjunto de bactérias que populam o intestino e são capazes de exercer grande influência na saúde digestiva e do organismo de forma geral.
Quando a microbiota é formada majoritariamente por “bactérias do bem”, há um quadro chamado de simbiose (boa relação mútua): onde o indivíduo traz boas condições para que esse conjunto de bactérias viva bem em seu intestino (alimentação saudável e consumo de água, por ex.), enquanto elas retribuem contribuindo para a saúde (auxiliam na digestão e na saúde da parede intestinal, por ex.).
Por outro lado, quando bactérias maléficas crescem desenfreadamente, cria-se o que chamamos de disbiose intestinal - provocando sintomas intestinais (gases, dor abdominal, constipação) e extra intestinais (inflamação crônica de baixo grau e problemas de humor - podendo contribuir até para a depressão).
Leia mais sobre disbiose intestinal
Como a saúde intestinal afeta o humor e comportamento?
Você já viveu um período de grande estresse ou ansiedade que afetou o funcionamento do seu intestino? Por exemplo: antes de uma importante apresentação no trabalho, sentiu aquele “frio na barriga”? Ou percebeu o intestino preso durante uma viagem por estar fora de casa e da rotina?
Esses são exemplos simples de como essa relação é poderosa e acontece o tempo todo, mesmo que não haja consciência disso. A saúde intestinal e emocional estão intimamente relacionadas e essa comunicação se dá pelo nervo vago (um nervo enorme que liga ambas as regiões), além de neurotransmissores, que emitem informações o tempo todo entre os neurônios presentes no cérebro (aprox. 100 bilhões) e intestino (aprox. 500 milhões).
Além disso, o desequilíbrio da microbiota e problemas intestinais abrem pequenas brechas na parede do intestino, permitindo a passagem de microrganismos e toxinas - o que, no longo prazo, pode levar à inflamação crônica de baixo grau: o estopim para desencadear inúmeras doenças, além de impactar negativamente na saúde mental.
Entretanto, é importante desmistificar uma informação errada que vem circulando por aí: a serotonina produzida no intestino não atravessa a barreira hemato-encefálica, ou seja, ela não vai para o cérebro, nem influência no comportamento. Esse neurotransmissor é fundamental para regular o humor, cujo comprometimento na produção ou recaptação está envolvido na depressão, porém ela só é válida para esse fim quando produzida no próprio cérebro, não no intestino.
Quais fatores prejudicam a microbiota?
Existem inúmeros hábitos maléficos que podem prejudicar a flora intestinal e humor, contribuindo para a piora da microbiota e depressão. Aqui estão alguns dos principais:
- abuso de antibióticos;
- dieta rica em açúcares e industrializados;
- pouca variedade alimentar;
- baixo consumo de alimentos ricos em fibras;
- uso exagerado de laxantes;
- exposição constante ao estresse;
- má qualidade de sono.
Como equilibrar a microbiota para ajudar no controle da depressão?
A alimentação saudável torna-se primordial para o restabelecimento do equilíbrio da flora intestinal e para o tratamento da depressão. Os alimentos e a suplementação que aumentam a microbiota de qualidade em nosso sistema gastrointestinal são uma consideração significativa na vida diária dos indivíduos. Além disso, alguns fatores podem influenciar significativamente na recuperação do equilíbrio da microbiota, como:
Alimentação saudável e diversificada
Uma dieta rica em fibras, vegetais, frutas e grãos integrais contribui diretamente para a diversidade e o equilíbrio da microbiota. Em contrapartida, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras saturadas, açúcar e sódio, pode desregular o funcionamento intestinal e prejudicar o equilíbrio da flora bacteriana.
Atenção à alergias e intolerâncias alimentares
Alimentos como glúten e lactose podem desencadear inflamações em pessoas sensíveis, afetando a integridade do intestino e da microbiota. Nestes casos, uma dieta adaptada, com exclusão desses componentes, é essencial para manter a microbiota saudável e reduzir os sintomas intestinais.
Uso de antibióticos
Apesar de serem importantes em determinados tratamentos, os antibióticos também eliminam bactérias benéficas do intestino. O uso prolongado ou repetido, sem reposição adequada de probióticos, pode comprometer a flora intestinal e impactar negativamente o humor e o bem-estar.
Doenças intestinais
Condições como a Síndrome do Intestino Irritável (SII) e Doenças Inflamatórias Intestinais (DII) afetam diretamente o equilíbrio microbiano e o funcionamento do intestino. Nestes casos, o acompanhamento médico e nutricional é indispensável para avaliar o uso de medicações e estratégias alimentares específicas.
Saiba mais sobre o tratamento da síndrome do intestino irritável
Suplementos que podem apoiar a saúde intestinal
Além de manter hábitos saudáveis, como uma alimentação equilibrada e a prática regular de atividade física, o uso de suplementos pode ser um grande aliado na manutenção da saúde intestinal. Veja abaixo:
Fibras alimentares
As fibras são componentes não digeríveis presentes em alimentos como psyllium, frutas, vegetais, leguminosas e cereais integrais. Quando chegam intactas ao intestino grosso, tornam-se alimento para as bactérias benéficas da microbiota, ajudando a manter um ambiente intestinal equilibrado e contribuindo para a saúde mental, consequentemente.
Estudos mostram que a suplementação com fibras contribui para a melhora da constipação, formação do bolo fecal e redução do tempo de trânsito intestinal. Além disso, as fibras são fundamentais para a integridade da barreira intestinal, oferecendo proteção contra inflamações e desequilíbrios.
Prebióticos
Prebióticos são tipos específicos de fibras que alimentam diretamente as bactérias benéficas do intestino. Ao promoverem o crescimento dessas bactérias e inibirem a proliferação de micro-organismos patogênicos, os prebióticos favorecem o equilíbrio da microbiota e auxiliam na regulação do intestino.
Probióticos
Probióticos são suplementos compostos por cepas vivas de bactérias benéficas. Eles atuam repondo a flora intestinal, competindo com micro-organismos nocivos e estimulando a produção de substâncias anti-inflamatórias e antibacterianas. Estudos indicam que os probióticos ajudam a fortalecer a barreira intestinal, reduzir inflamações e melhorar o trânsito intestinal — sendo úteis tanto na constipação quanto em desequilíbrios digestivos.
Magnésio
O magnésio desempenha um papel importante na função intestinal ao promover o relaxamento da musculatura do trato gastrointestinal e melhorar a permeabilidade da mucosa intestinal. Essa ação facilita a evacuação e ajuda a aliviar quadros de constipação. Pesquisas apontam que o magnésio contribui para a regularidade intestinal, além de criar um ambiente mais favorável para a saúde da microbiota.
A depressão é um distúrbio multifatorial, cujo tratamento precisa envolver várias frentes - como auxílio psiquiátrico, medicamentoso e terapêutico. Entretanto, sabendo da importância do eixo intestino-cérebro e como a microbiota afeta o humor e comportamento, é importante considerar a melhora dos hábitos alimentares na busca por um intestino mais saudável como parte das medidas de tratamento da doença.




